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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Vingt-neuf



Naquele momento, eu queria estar apaixonado e depressivo. Combinando a vista, o vento frio e um lento suicídio, parecia apropriado pensar em alguém que não dava a mínima pra este cenário. Às vezes acho até que fui feito pra isso. Mas eu não tinha em quem pensar.

Talvez tivesse.

Me identifiquei com o céu sem estrelas, pois me senti vazio ali. Não sentia nada, ou não sabia definir o que sentia. Poucas emoções me sobraram. Deixei-as nas pessoas que passaram, e em suas respectivas músicas. Parecia ter perdido a paciência para coisas bonitas.

Voltei pra casa ao som do vento e de tristezas alheias que combinavam com as minhas. Imaginava um dueto entre mim e o banco vazio ao meu lado, cantando as mesmas dores e alegrias.

Pelo resto da noite, me fiz responsável por cuidar da presença que ocupava aquele banco vazio. Poderia ter feito melhor, se soubesse o tamanho do arrependimento que viria depois. Fui enganado por sua devoção. Traído por minha vontade. Tive todas as chances do mundo e as desperdicei. Mais uma vez deixei o passado ficar no passado.

Mas não era onde ele pertencia.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sem Escalas



As paredes sentem a minha dor. Por alguns segundos, ajudam a esquecer. Me escapam reflexos de frustração, como uma resposta aos erros que tanto demorei pra perceber. Tarde demais pra consertar.

Ando golpeando minhas ideias. Derrubei meus planos antes tão fixos com uma facilidade assustadora. Voar sozinho parecia possível. Parecia perfeito. Mas as lembranças atacaram violentamente, com duros golpes de realidade.

Todos precisam de um co-piloto.

Os dias estão longos demais. A espera me consome. Busco conforto nas músicas, tantas a dedicar. As que fiz não devem agradar tanto quanto as que fizeram. Depositei nelas, inocente, a esperança de que consertariam aqueles erros.

Era tarde demais. As notas caíram aos meus pés, como um espelho quebrado. Refletiam traços de angústia por uma certeza rompida. Eu não era mais aquele porto seguro. Nunca mereci o título. Fui uma ilusão, até para mim mesmo.

Mas vou me reconstruir e aguardar o seu retorno.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Autossuficiência




Me pergunto se você está sendo forte. Se está se controlando. Ainda me preocupo, e sou incapaz de controlar minhas palavras. Não veja minhas palavras.

Está mantendo distância?

Deveria.

Não tenha esperanças. Sei que você diz não ter, mas não sei se acredito. Esperar é perigoso. Mas te entendo. Tenho dúvidas às vezes.

Não tenha esperanças.

Ando vazio, mesmo com tudo isso à minha volta. Simplesmente não parece ser o suficiente. E não é fácil transformar o vazio em algo como arte, mas preciso aprender. Ver algo onde não há nada. Escrever sobre a falta de escrita. Cantar sobre a ausência.

Quero arrancar poesias de um buraco negro.

Eliminar então aquelas dúvidas, e aprender a viver comigo. Não posso fugir de mim.

Mas você pode.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Voltas



Vez ou outra, reencontro pessoas que pensei já terem sido engolidas pelo passado. Colocado em circunstâncias onde a interação com elas é possível às vezes, inevitável ,  penso em como o mundo realmente dá voltas.

Mas ainda não deu a volta que eu queria. Pessoas que não esqueci, ou com quem acredito ter assuntos inacabados, e gostaria de reencontrá-las. Dizer aquelas frases perfeitas que nunca vêm à mente no momento certo, e terminar tudo à minha maneira ou ganhar uma nova chance. Ou simplesmente retomar uma amizade. 

Relembro as histórias, tanto as boas quanto as ruins, todas inesquecíveis. Não se trata de viver no passado, mas de trazê-lo comigo quando convém. Quero descobrir como anda o presente daquele passado, e se esse presente ainda se lembra do passado como eu me lembro. Se teve a mesma importância.

Tenho uma certa necessidade de ser lembrado.

Certas coisas não merecem o completo esquecimento. Certas coisas são valiosas, mudam visões, mudam pensamentos, e deixá-las pra trás não vale a pena. Mas às vezes, uma volta vazia do mundo era o que faltava para perpetuar uma experiência, uma fase, uma pessoa.

Ou perpetuar o próprio vazio.

domingo, 24 de agosto de 2014

Drama




Pra onde foram os amores impossíveis, as esperas angustiantes, as saídas dramáticas? É estranho sentir saudades daquele leve sofrimento jovem. Ver o sol nascer sem perceber que a noite se perdeu entre cenários perfeitos, imaginados por um coração partido. E saber, então, que viriam muitas outras noites assim.

Pra onde foram os momentos constrangedores, os olhares carregados e as caminhadas solitárias? Tudo envolto em um desejo egocêntrico de poder produzir uma fotografia que representasse tantas emoções juntas. Que mostrasse a casa vazia, a música triste, o único lugar ocupado na mesa. Poderíamos ver as injustiças caídas sobre alguém que não tinha nada além de boas intenções.

A conquista morreu nas mãos daqueles que cansaram de procurá-la. Ela própria havia se cansado de esperar. Sumiram as decepções, os encontros, as palavras profundas. As lágrimas secaram e tudo ficou cada vez mais raso.

Talvez seja a idade. A falta de tempo para o drama. Ele vive somente nas músicas, nos filmes e nos livros, pois ninguém mais tem espaço para vivê-lo. As preocupações são outras, embora ninguém perceba que são infinitamente menos relevantes.

Talvez não. Talvez seja só a visão distorcida de um coração amargurado.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Alegrias impossíveis



Sei onde sua mente está. Sei onde ela tem passado os últimos dias, até meses. Anda vagando bem longe da sua casa, enquanto você decide se tenta trazê-la de volta ou não.

Seus pensamentos não deveriam estar tão longe. Sei o que os atraiu, e infelizmente não foi sem querer. Mas agora se sente confusa, pois as alegrias que sua mente busca estão fora de alcance. E se as pudesse ter, trariam tristezas. Você está presa num dilema bobo, causado por químicas conflitantes.

 Às vezes você fraqueja e desobedece a razão. Pega o telefone e disca os números proibidos. Depois do desabafo e das histórias antigas, vai dormir sentindo-se mais leve. Ao menos enquanto a consciência não pesar, quando sua mente voltar pra casa por um instante.

Mas ela logo viaja outra vez, sonhando com o que não pode ter.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Observando



Já faz um tempo desde a última vez que parei para observar. Admirar ruas vazias e estrelas frias que passam pela janela. Um costume de melancolia noturna, na sua época de constância.

Observava esperando uma resposta às minhas perguntas silenciosas. Talvez o vento a traria. Esperei inconsciente na varanda fria, acreditando que não importava. Não me importava. Ocupava a mente com canções sobre saudades, tantas que eram. Cansado de tentar antecipar o futuro, deixei que viesse sozinho enquanto observava o passado de longe.

E o futuro veio, incerto e discreto, quase passando por mim. Riu dos meus planos e me deu um melhor — algo tão raro que ainda não sei se acredito. Trouxe também a resposta que eu esperava, e me pôs a buscar elementos para descrevê-la. Deu um fim à constância da melancolia noturna.

Agora, as noites são preenchidas com alegrias compartilhadas constantemente, sem espaço para uma olhada triste pela janela. Deixei de observar as ruas vazias para percorrê-las acompanhado. Deixei de admirar solitário as estrelas para conversar sobre elas. Divido tudo o que me agrada e me sinto completo. Entre novas músicas, um solo para o passado e duas vozes para o futuro.

Um futuro que sempre irei querer pra sempre.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Escrevi quando...



Quando quis criar um texto que tocasse as pessoas de alguma forma.
Quando falei sobre aqueles momentos de solidão, mesmo quando se está cercado de amigos.
Quando simplesmente demonstrei uma sincera revolta.
Quando quis deixar claro que destino não existe.
Quando o que escrevi deixou de ter significado.
Quando me proclamei mestre das desilusões.
Quando defendi o caos.
Quando percebi a ausência das nuvens.
Quando desejei uma noite calma entre amigos.
Quando retratei uma rotina perdida.
Quando desapareceram aqueles momentos de solidão.
Quando arruinei uma teoria.
Quando percebi que conclusões simples geram idéias fantásticas.
Quando tive saudade.
Quando tentaram mudar meus ideais.
Quando me afastaram.
Quando cansaram de mim.
Quando dormi em frases perfeitas.
Quando tive vontade de fugir.
Quando me senti nostálgico.
Quando falei da magia dos livros.
Quando me afastei.
 

E quando me arrependi.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Aéreo



Começo a criar uma ligação entre aviões e depressão. Se tornou meu lugar variável e pessoal de torturas emocionais. Pois a cada viagem, o coração fica pra trás.

E nasce uma lista de paixões temporárias, cada uma com uma história emocionante ou bizarra. Paixões que talvez dependessem só dos momentos,  nunca das pessoas. Me sinto um psicopata do tempo, por mais que a vida devesse ser assim. Afinal, coisas boas nunca duram. Encontramos pequenos fragmentos da linha finita da felicidade que acompanha a interminável linha da vida.

De cima posso ver tudo, mas não vejo nada. A densidade dos pensamentos bloqueia minha visão, e só vejo passados. Aqueles que desejam ficar, voltar ou desaparecer. Um purgatório desorganizado, lotado e inquieto, quase vivo. O foco tarda, mas sempre chega. No meio da confusão, avisto o futuro.

Não costumo escolher futuros, sempre tão nebulosos. Escolho agora pela confusão do presente, prestes a formar um novo passado emocionante e bizarro. Desço do tempo que me carrega, pois ele já não sabe o que faz.

Alinhadas as direções, volto para os braços do acaso e deixo as preocupações para quem as necessita. Viver é mais interessante assim, adotando o não-saber. Constroem-se histórias espontâneas e valiosas para quem as necessita. Um anti-guia do futuro para os que sabem os caminhos do presente.

E aqui estou, aéreo, voando por maternidades e cemitérios.

domingo, 30 de junho de 2013

Aventura



Voei a observar as estrelas esta noite, com o Cruzeiro do Sul à minha direita e mil coisas a pensar. As idas não me inspiram como as voltas, mas tenho a quem lembrar sempre que me afasto. E lembro, no decorrer de uma época confusa, em meio a sentimentos confusos, daqueles que ficaram para trás. Depois busco companhia, pois cansei de pensar. Busco alguém que possa ocupar minha mente e me acalmar por um tempo. As consequências são ótimas noites de péssimo sono.

Observo o mundo abaixo, esperando vê-lo mudar de direção. Vítima do anseio por pedaços do passado que devem tardar a se repetir. Mas esqueço o impossível e prossigo, dividido e receoso. No passado não tinha nada e agora tenho demais. Mais do que se pode ter, mais do que um coração suporta. Opções que não podem caminhar juntas. Escolhas tão erradas e tão certas, que nunca imaginei ter de fazer. 

Através da infinitude escura não vejo nada além do próximo passo, nem gosto de tentar. O fim nunca existe, mas alguém sempre tenta criá-lo em qualquer caminho visível, seja próprio ou alheio. Assim são feitos os desvios, às vezes enlouquecedores ou torturantes. São feitas as decisões precipitadas que precedem o arrependimento, às vezes também precipitado. São feitas declarações, despedidas, mais declarações e uma saudação correta ou algumas novas saudações egoístas. Mas o certo não espera pra sempre.

Vontades vão e voltam, e deixo que me levem junto. Não fui programado para negá-las. Podem me destruir, se me alegrarem antes. São as decisões precipitadas, que precedem o arrependimento que a mim nunca chegou. O fim é triste mas o começo não foi um erro.

E se tiver sido, eu não quero estar certo.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Indecifrável



Vento frio num dia de sol. A mente vazia ganha brisas de inspiração que logo se esvaem. A tranquilidade plena não guarda pensamentos profundos. O dia passa e a mente passa o dia improdutiva a vagar, livre inclusive das preocupações que deveria ter.

A lua some em meio a chuva. A mente vazia torna-se densa ao unir palavras e frases soltas, a fim de libertar-se das angústias passadas e futuras, nunca presentes. Mesmo em tranquilidade plena a mente pode expor a arte que possui. Arte que nasce do cheiro dos livros, do som do ventilador e da cama desocupada. Nasce de tudo que compõe o nada; deuses pessoais agindo ao acaso.

Nuvens inertes guardam castelos em guerra enquanto transmitem paz. E a mente vazia é alimentada pela simplicidade, uma vez que se cansou do complexo. Vive entre livros em espera e novos amores, músicas antigas e velhas dores por nostalgia insegura de tempos nem tão distantes. Passa pela vida tentando viver, oferecendo algo além da existência monótona do apenas-mais-um. Corre em círculos tentando fugir.

Fugas são utópicas, graças à memória constantemente renovada. Todas as ações e escolhas ecoam eternamente, em forma de lembretes com bons propósitos. Há sempre novas luzes, novos ventos, outras nuvens e tormentos. Não existe vida sem problemas, preocupação é inútil. Dormir em território inimigo e acordar vivo é a melhor das conquistas.

Acordar debaixo de um sol que brilha contra chuvas, iluminando castelos e revelando fugas pela busca de recomeços em outras paragens. Selvagens aqueles que ficam, na crença de que são imutáveis ou capazes de criar algo melhor.

Porém toda ação é um código que denuncia outra. A atenção da mente vazia é quem molda a arte.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Lágrimas




Já podia ver as lágrimas no rosto dela, descendo devagar dos olhos claros. Apareciam como fantasmas, antecipando o fim. Transmitiam sentimentos que não desejava sentir ali. Tornavam mais densa a melancolia do ambiente. E desapareciam em seguida.

E já naquele momento, a despedida que ainda estava por vir mudou de sentido. Passou de um "até nunca mais" para "nos vemos em breve". Foram lágrimas que quebraram barreiras e o atingiram de tal forma, forçando-o a aceitar que havia perdido. A arriscar um futuro fadado ao fim. A crer na exceção.

E as noites. As noites que se tornariam tão solitárias e vazias, dando lugar às memórias felizes que o entristeciam por saber que não poderia mais tê-las no presente. Pensamentos não obedecem vontades. Agradeceu, porém, a capacidade sentimental que possuía; feliz por sentir-se vivo enquanto triste. Esqueceu dos princípios e deixou-se ter esperança. Um sentimento há tanto abandonado graças a uma escolha sábia. Mas o racional pode ser cansativo, e surge a vontade de arriscar.

Se deu conta de que nasceu como um colecionador de histórias. Percebeu que a única lógica que seguia era o rastro delas, pois mesmo os finais trágicos costumam pertencer a grandes histórias. Pessoas e lugares com algo a oferecer eram alimentos de um grande ego que só queria viver, sem se importar com resultados.

Então arriscou. Secou aquelas lágrimas e afastou os fantasmas que ele sabia que um dia voltariam. Ela abriu um sorriso tão real quanto aquela história seria. Um sorriso que ele se dedicaria a manter vivo.

Fez as memórias felizes voltarem, só porque era possível.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Medo



Fui traído pelo medo. Medo da rejeição, que eu não devia temer por estar acostumado a ela. O caminho mais seguro raramente é o melhor, e ainda assim insisto em seguir por ele. Ao seu fim, há sempre uma noite insone. Ou várias.

Deixei de arriscar, escolhendo conviver por dias e dias com o pior dos arrependimentos. Preferia não descobrir que o risco corrido se faria válido, que nenhum tipo de arrependimento ficaria pra depois. Mas das escolhas certas nascem bons momentos. Das erradas, nascem paixões.

E meus pensamentos voaram em busca de uma resposta, mesmo sem haver clareza na pergunta. Nunca esperaria nada da situação em que fui colocado, e eis que nasce outra grande história. Não posso dizer que é só mais uma sem final feliz, pois está longe de terminar. Encontrei dezenas de possibilidades e futuros distintos, mas nenhuma forma de trazer o momento de volta. Tive raiva de mim mesmo após a despedida e me perguntei a razão de ter ignorado tantos sinais, tentando me convencer a não fazê-lo de novo.

Pois quando menos se espera, surge alguém. Alguém que lhe rouba o coração com apenas um olhar, e às vezes é gentil o suficiente para compartilhar outros olhares, demorados, quase eternos. Olhares que ainda parecem estar lá, não importa o tempo que se foi.

Aquela chance pode voltar, mas seria uma rara excessão. Tantas já foram perdidas, deixando pra trás apenas a lembrança de ver o momento ideal escorregar pelos meus dedos, incapaz de fechá-los.

E todas as idéias que salvariam o momento, vindo a mim com atraso inaceitável.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Vazio



Os outros dançavam enquanto ele olhava pro nada, visualizando a infelicidade quase palpável de uma solidão acompanhada. Assumiu feições depressivas em busca de pena e conforto, e ninguém se importou. Saiu, envergonhado.

E ele sofreu enquanto a chuva caía lá fora. O som dos problemas era mais alto, e tudo parecia ruir. O que deveriam ser tempos alegres foram tomados por nuvens negras que traziam certa depressão. Os amigos pareciam distantes e ele não sabia por quem viver.

Madrugadas se foram a encarar o teto tentando descobrir a quem amava, pois queria amar de novo. O sofrimento desnecessário mais buscado pelo homem. A confusão o assombrava a cada reavaliação da própria vida, e descobriu que não se conhecia como imaginava. Um romântico sem esperanças transformando-se no que detestava.

O vazio o consumia. Andou contra as luzes da cidade pensando em como nada mais fazia sentido. As noites ficaram sem graça como as músicas que costumavam provocar sentimentos vivos. Ele não sentia mais nada. A barreira que ele próprio criou por proteção agora se voltava contra ele, bloqueando aquilo que o fazia miseravelmente feliz. Aquilo que ocupava sua mente nos devaneios noturnos, vagantes ou chuvosos. Aquilo que o fazia sentir-se vivo, com histórias pra contar.

Tornou-se quase um vício, depois do período de abstinência. Seu desejo o cercava onde quer que fosse, sem tocá-lo. Era torturante vê-lo por todos os lados, onde parecia se posicionar propositalmente. A concentração se tornava mais difícil a cada visão enquanto a mente se deslocava para cada vez mais longe, desobediente.

É preciso que existam demônios para se entender a importância dos anjos. E o que se precisa para seguir em frente é de uma frustração revoltante. Esqueceu então os problemas que eram abafados pelo som da chuva, e viveu como merecia.

Como um homem que sabe por quem viver.



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Lindas Tragédias



Sinto falta de me identificar com letras de músicas e ter em quem pensar ao ir dormir. Uma única pessoa a ser lembrada pelos filmes de uma noite fria. Lembrar, com sorrisos ou lágrimas secas, os momentos que ainda existem, nunca existiram ou morreram no passado.

As paixões vêm e vão rapidamente, e me vejo terminando músicas sobre quem ficou pra trás antes que eu pudesse continuá-las. Se tornam pensamentos incompletos de um coração inquieto e ansioso, percebendo que não existe o amor à primeira vista, mas existem pessoas que lhe roubam o coração apenas com um olhar. E o levam embora, deixando somente a sensação do vazio, absorvendo um olhar que nunca mais será encontrado. Um coração ansioso, porém vivo.

Depois do trauma criou-se um bloqueio, que não deveria ser derrubado. Ando por seus limites cautelosamente, tentando não cair do lado de fora. Seria trágico...sempre é. Sigo numa busca mais refinada e exigente, a fim de evitar decepções inevitáveis. Evitar as lágrimas que viriam se fosse capaz de chorar.

O amor é algo lindo em palavras. Até o sofrimento causado por ele é admirável, e inspira grandiosidades. Não existe a certeza de um final feliz, mas existe a da tragédia. A variante é o tempo que levamos até o fim. Até começar tudo outra vez.

Tudo se resume a segredos, que não seriam segredos se o óbvio fosse dito.  Não há segredo. Há coisas simples que não são ditas e passam despercebidas, mesmo sendo a peça que faltava para o próximo passo. Consequentemente, vivemos a complicar o que deveria ser fácil.

A vida é um eterno livro de lindas tragédias.

domingo, 30 de setembro de 2012

Inspiração



A inspiração pode ser momentânea. Ou amadurecida; ao passar por uma fase significativa da vida, onde os pensamentos e idéias sobre ela sofrem mutações, até se tornarem conclusões e teorias. E, em cima delas, colocam-se poesias - por assim dizer.

É algo que cresce internamente com o tempo, seu inconsciente observando artisticamente os acontecimentos ao redor. As conclusões vêm à tona de repente, muitas vezes claras como uma epifania. As palavras se juntam em harmonia automaticamente, sem esforço. Carregadas de emoções.

A inspiração momentânea é mais rara, mas quando aparece com vontade, traz belos resultados. Não há meios de descrever o processo que a permite acontecer, ou me falta experiência. Apatia e desligamento do mundo numa mesa de jantar veio a ser uma das minhas receitas, por puro acaso. Os métodos são infinitos, isso se realmente existirem. Cada mente opera de uma forma, e aí se esconde o misticismo das criações.

Mas costuma haver um preço. Como sentir-se emocionalmente destruído por um tempo, ou pra sempre. Como ser alvo daquilo que mais teme, vendo-se obrigado a escolher entre lutar ou fugir. Se der sorte, terá uma experiência valiosa dentro de uma história, fonte de reflexões a reproduzir.

Ainda assim, nada é mais inspirador do que um bom, ou trágico, romance.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Perpétua



Sinto-me preso a um passado que não consigo esquecer. Como poderia, se este insiste em andar em pessoa à minha volta, sempre a me incomodar e me confundir? A história inteira me vem à mente novamente, com todos os seus detalhes, alegrias e decepções.

Posso deixar para trás muitos passados, mas não esse. Inesquecível da pior forma, matando-me por dentro eternamente, ao passo em que faz sentir vivo e fadado a carregar nos ombros o peso de tais lembranças fatais, com pensamentos moldados a cada relembrar.

Fatal para a alma, talvez. Com um primeiro olhar, morrem esperanças e motivações. Com a intimidade vem a morte dos sonhos, das noites alegres e tranquilas, do silêncio de uma mente sem tempestades.

Nunca me faltarão palavras para descrever a mesma situação e contar a mesma história de formas diferentes, sendo tão grandiosa para uma vida simples. Posso passar a vida a fazê-lo, sem nunca conseguir traduzir as emoções e sensações daquela época conturbada. Época de lágrimas internas e ombros ensanguentados a suportar a frustração maior.

E resta no fundo aquela esperança de fazer tal época voltar, como uma discreta declaração de amor eterno por uma simples amizade perdida.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Sempre buscando - final



E a história se repetiu. Rápida como um tiro, com milhões de alegrias ao me atravessar, matando-me ao sair. O velho e metafórico renascimento veio outra vez, mais experiente e desperto. É fácil desviar os olhos da lucidez, ao manter-se aberto aos sentimentos.

Por outro lado, aprende-se que a idéia de que é possível controlar a busca inconsciente e incessante por companhia não passa de ilusão. Luto contra a lógica, ou contra fantasias? No caso, não importa. Seja o que for, decerto me derrotará eventualmente, um dia. Mas resisti até agora.

Resisto pois a busca raramente traz bons resultados. E mesmo os bons, como os ruins, destroem momentos dignos de uma vida proveitosa. Os resultados guiaram - infelizes, quase sempre - grande parte da minha breve vida. Aparecerão novamente, tão logo eu baixe a guarda. Atormentarão meus sonhos, me negarão alegrias. Me leva a pensar que a felicidade deve ser conquistada constantemente numa eterna batalha interna.

As batalhas externas deveriam ser dispensáveis e irrelevantes. O mundo moderno foi moldado da maneira mais complicada encontrada pelo homem. Traçando perpendiculares no caminho da vida, criando situações desnecessárias que nada fazem exceto confundir mentes, a ponto de deixarem poéticas frases soltas num conto qualquer, sobre a história de uma vida insignificante.

A busca é o que nos resta.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Espinhos



Seguia veloz pelas ruas de um lugar desconhecido, ouvindo sempre as mesmas músicas e relembrando breves sensações de uma época impactante de sua vida.

Poucas coisas fizeram sentido naquela história, mas isso se explica pelos fatores envolvidos. Esquivava-se dos rostos embaçados, guiando-se automaticamente para seu destino enquanto seus pensamentos atravessavam oceanos. Mantinha os olhos abertos somente porque não podia prever os obstáculos inconstantes.

Fora vítima de um passado eterno, e sua protagonista vivia constantemente mutável em sua frente, sem saber. Ou sabia, sem se importar. Mas seguia, virando esquinas perigosas e quase trombando com novos futuros assombrosos. Quase?

Acumulou mais alguns, na verdade. Até cair graciosamente num mar de rosas. Os espinhos, só sentiria mais tarde. Delirava com o perfume frio e fatal de uma nova fase que por muito havia esperado. Assustou-se com as primeiras recaídas, a saudade das águas misteriosas que um dia enfrentou. Sentiu que havia adquirido experiência suficiente para guiar-se, mas se recusava a tentar. E se acostumou.

O mar de rosas, apunhalando-o lentamente, era mais agradável.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Turbulência



Um conjunto de lindos versos - pois nasceram de um amor recente - agora derrubado por versos trágicos, ainda que poéticos, vindos da morte rápida do mesmo amor. A criatividade se renova com as mudanças, tornando suportável o delírio do viver.

Não suportaria uma vida não turbulenta e comandada por relações rotineiras, tal como um céu limpo ou uma estrada sem leves desníveis. Viver perderia seu fascínio e espantaria qualquer vontade. Os melhores sorrisos se abriram a cada pequena vitória, a cada momento ao passar da tensão, e principalmente ao fim de uma era de fracassos. E o tédio traz saudade das frustrações, só pelo modo fácil de sentir algo diferente.

A felicidade plena e eterna é inalcançável. Ela é composta de momentos que precisamos buscar, e aprender a aceitar que nem sempre conseguimos encontrá-los, pois ser feliz não é da nossa natureza.

Mas as frustrações não pararam. Se tornaram mais fortes, porém mais raras. Aos poucos paro de assistir a vida passar e decido tornar-me parte dela. O impossível é controlá-la, deixar de ser derrubado.

Levantar-me, ao menos, é uma escolha simples.