sexta-feira, 9 de abril de 2010

Breve Alívio



Cansaço. Sentado naquela sala lotada, sinto uma súbita e forte vontade de arremessar para longe o lápis que repousa entre meus dedos. Não há um motivo, apenas uma vontade. Uma vontade que representaria o fim de uma respiração, quando o ar sai como uma bala.

Estou cansado. Cansado de sentar ali no frio, sozinho, olhando para o nada enquanto alguém em pé lá na frente tenta - quase ou sem sucesso - preencher várias mentes com grandes complicações inúteis. Coisas que querem que você guarde em sua cabeça até certo ponto, para depois esquecer completamente, aliviado.

Enfim, ouço um som excruciante, mas libertador. Junto minhas coisas e saio, tentando livrar minha mente de tudo que não preciso saber agora. Começo a me sentir mais leve à medida que vou me afastando daquela sala lotada.

De repente, sinto dedos empurrando minhas costas. Levanto a cabeça devagar, desorientado. Sinto novamente a vontade de arremessar o lápis para longe. E o faço.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Destino



"Ah, se não aconteceu, não era pra ser!". Errado. Coisas ruins acontecem, e tudo depende das SUAS escolhas. Essa coisa de 'não era pra ser' implica em um lado positivo. Sim, há males que vêm para o bem, mas nem tudo são flores. Ainda bem, porque eu odeio flores.

Destino é só mais 'alguém' pra você culpar quando as coisas não acontecem como você queria. O fraco odeia a dor, mas também odeia ser o responsável pela própria dor. Como se isso ajudasse a amenizá-la, ele se esconde atrás do 'destino' e se faz de coitado.

Não entendo como essas pessoas gostam de achar que não controlam a própria vida. Qual é a graça de viver, então? Se suas escolhas já foram feitas por um suposto senhor invisível que mora no céu, o que sobrou pra você fazer por aqui?

Eu, pelo menos, prefiro pensar que estou no controle da minha vida. Sou capaz de fazer escolhas por mim mesmo, e não importa se serão boas ou ruins, desde que sejam minhas. Mas quando eu perceber que fiz uma má escolha - e se não for tarde demais - posso tentar corrigir. É melhor que ficar imaginando que 'não era pra ser' e deixar tudo como está, até que as coisas se acertem magicamente.


E se o destino existe, a vida ainda continua. Só que sem graça nenhuma.

sábado, 3 de abril de 2010

Transe



Estado depressivo. Coisas ruins acontecem, mas no momento, você não liga. Resolve sair.
No caminho, passa a se sentir desconfortável. Sua mente começa a processar todas aquelas coisas ruins.


Você fecha a cara, e fica ansiosamente esperando alguém lhe perguntar o que aconteceu, apenas para responder, com a voz fraca e quase inaudível:

- Nada...

Você está em transe. Mas não sabe disso ainda. Você pode sair dele, mas não quer. Esta súbita depressão é, de certa forma, prazerosa. Com os olhos mirando o vácuo, tenta, nem sempre com sucesso, contaminar o ambiente com o seu estado de espírito.

Você torce para que um conhecido - de preferência, alguém que te atrai - perceba a sua carência e fique ao seu lado, tentando te animar. Mas você não se anima, pois assim, manterá essa presença aquecedora mais tempo perto de você. Por dentro, você se sente melhor.
 

Quando isso não acontece, você pensa em sair dali, mas percebe que não tem pra onde ir. Então você finalmente resolve parar de sofrer sozinho. Tenta se divertir novamente.
 

Nessas ocasiões, a noite nunca é das melhores. Mas, por algum motivo, você não se arrepende.

E a vida continua.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

Fireflies

Com vocês: Cobus Potgieter, o melhor baterista do mundo, na minha opinião.

terça-feira, 30 de março de 2010

Hipocrisia

"A humanidade é o câncer do planeta". Alguém já disse isso, mas não lembro quem. Apenas sei que concordo plenamente.

O mundo seria um lugar muito melhor se as criaturas não tivessem evoluído tanto até o surgimento dos seres humanos. Existiriam apenas coelhinhos e oncinhas saltitantes e alegres. Nada de poluição, desmatamento, violência etc.

O que realmente me incomoda é o fato de que as pessoas continuam se reproduzindo, vivendo numa eterna hipocrisia. Até os que separam o lixo, por exemplo, não andam a pé por aí. E seus filhos farão a mesma coisa. Ou pior.

A reprodução é sempre uma escolha, seja consciente ou inconsciente. E é essa escolha que torna a humanidade uma raça hipócrita. Não consigo entender a necessidade das pessoas de ter filhos, criá-los e "educá-los", para que virem novos monstrinhos de destruição. Não consigo ver o lado positivo de ter que aturar e alimentar um bebê até que ele vire um adulto capaz de cuidar da própria vida.

O padrão da sociedade é patético. Nascer, crescer, estudar, trabalhar, casar e morrer. A maioria das pessoas segue esse padrão cegamente. Mas onde entra a verdadeira diversão? São poucos os que entendem que esse padrão não é um modelo de vida ideal. "Se você seguir todas as regras, perderá toda a diversão".

E tem as campanhas para 'salvar o planeta'. São o pior tipo de hipocrisia. Os chamados 'ecochatos' só se preocupam com o planeta na hora da campanha. Depois disso, esquecem tudo e voltam a gastar água, energia, dar uma volta de carro, destruindo o mundo à sua volta sem perceber. Ou talvez até percebem, mas não estão muito mais preocupados com isso.

Eu, pelo menos, SEI que não faço bem para o planeta. É por que eu não me importo com o planeta. Me importo apenas com o tempo que EU tenho de vida, e pretendo aproveitar esse tempo ao máximo. Egoísmo? Talvez. Não me importa. Mas sei que terei uma vida muito melhor que a dos 'ecochatos'.

E assim caminha a humanidade.

domingo, 28 de março de 2010

Eu queria...



Queria saber desenhar. Queria saber dar mortal fora da piscina. Queria fazer algo grandioso pra ser conhecido mundialmente, mas não como uma 'celebridade'. Queria dividir uma casa com um amigo. Queria saber surfar. Queria ganhar dinheiro com a minha música. Queria ser um bom aluno. Queria ter um barco. Queria viver numa ilha deserta, mas só por alguns dias. Queria ter um cachorro. Queria escrever um livro.
 

Queria saber como é morrer, mas viver pra contar. Queria saber falar latim e alemão. Queria aprender Kung-fu. Queria ter um grande amor. Queria saber andar de skate. Queria saber cantar. Queria ser mais alto, e menos magro. Queria vagar pela Europa. Queria viver num mundo sem governantes. Queria ter uma irmã um pouco mais nova que eu. Queria ser criador de uma frase famosa. Queria que só houvesse a noite. Queria ser um pouco mais popular.

Queria ter vivido o movimento punk. Queria pular de pára-quedas. Queria que o refrigerante fosse mais saudável que a água. Queria ter conhecido os Beatles. Queria ter 18 anos pra sempre. Queria saber como é ser cego, surdo e mudo, sem ser. Queria ser um 'fora-da-lei'. Queria ver a neve. Queria ter um arqui-inimigo. Queria saber ler hieroglifos. Queria ter uma casa no campo. Queria conseguir falar tudo o que penso.

Queria ter a capacidade de escrever grandes textos.



O Músico

"Podemos apreender o caráter de um povo, de um momento histórico e de um ser humano pela música que ele pratica e ouve. A música não só revela os sentimentos e emoções íntimas do ser humano, mas também os gera e os transforma.

Neste sentido torna-se valioso o conhecimento do material utilizado pela música, mesmo que não o manipulemos como músicos; pois certamente somos mais influenciados pelas sonoridades que nos cercam do que gostaríamos de admitir.

A música pode nos levar a possibilidades de experiências jamais tentadas. Em todas as culturas antigas do mundo, a música existiu em função do ritual, do serviço a Deus, da expansão da consciência e das mais profundas experiências humanas. Os ritos e cultos xamanísticos, os rituais da África ou da América do Sul, do Extremo Oriente, trabalham com um conhecimento, que podemos chamar de inconsciente, de uma força primordial, ou lei, desencadeada através de manifestações musicais.

De qualquer maneira isso já seria interessante para nós ocidentais ou ocidentalizados. Poderíamos, e isso só cabe a nós, não só deixar essa energia agir de forma mágica, mas também experimentá-la conscientemente, tornando-a mais presente, a nosso dispor e com isso tornando-nos seres mais perfeitos, íntegros. Em suma, mais seres humanos.

Nas civilizações da antiguidade, o som organizado inteligentemente representava a mais elevada de todas as artes, e a música, a mais importante das ciências, o caminho mais poderoso da iluminação religiosa e a base de um governo estável e harmonioso. A música vigorosamente agia sobre o caráter do homem.

Hoje, nós modernos ou pós-modernos, pós-tudo, ex-tudo (como diz Augusto de Campos), não estudamos, não mudamos, emudecemos e o pior: ficamos surdos.

Quando não ouvimos

a própria voz

desafinamos.


Não consideramos mais o som audível um reflexo terreno de uma atividade vibratória, que se dá além do mundo físico, mais fundamental e mais próxima do âmago das coisas. Inaudível ao ouvido humano, esta atividade vibratória cósmica é a origem e a base de tudo que foi e continua a ser gerado no universo.

Além da música, a expressão do discurso era considerada um reflexo no mundo da matéria dos tons cósmicos. Esses tons cósmicos eram chamados pelos egípcios de 'o verbo' ou 'o verbo dos deuses'; pelos gregos de 'a música das esferas'.

As palavras, ouvidas por este diapasão, possuem um poder encantatório imenso. Já dizia Louis F. Céline que o trabalho com as palavras pode matar um homem. Se pode matá-lo pode também salvá-lo, digo. Os arranjos são infinitos, aprendamos a escolher.

No princípio, então, sempre esteve o som, o verbo, a palavra, o ritmo, o logos. Como na música, assim na vida, já ouvimos. Diga-me qual a palavra e te direi quem és.

Os poetas, a meu ver, têm a função de recuperar este poder encantatório das palavras, tão corroídas pelos clichês. A função do músico, por outro lado, é colocar ordem no caos. Os ruídos são muitos e a afinação e a harmonia (esta deusa/artesã que cria as formas mortais) revelam-se mais uma vez adequadas para este momento. De partes bem ajustadas assenhora-se o sábio do Todo.

Os ouvidos não têm pálpebras.

Conta-se que Villa Lobos, quando questionado sobre como conseguia compor com tantos ruídos externos (janela aberta aos sons da urbe ensandecida), respondeu com simplicidade: 'Meu filho, o ouvido externo não tem nada a ver com o ouvido interno'."


(Autor desconhecido)